O vento soprava, balançando as folhas das grandes árvores da rua da Liberdade. O jardim da família Souza possuía um abeto balsâmico que exalava uma fragrância agradável e possuía as agulhas num tom verde escuro. O Natal estava próximo e Alberto Souza decidira comprar um abeto balsâmico ao invés de um abeto Frasier, uma vez que as condições climáticas de Pleroma eram consideradas ideais para seu crescimento, favorecido ainda mais pelo solo com boa drenagem que o seu jardim oferecia. Como uma autêntica família cristã, os Souza sempre se reuniam para comemoração do Natal e a decoração da árvore já se tornara uma tradição.
Ao lado da casa dos Souza, estava a mansão de Moisés Klabim, um refugiado judeu da Segunda Guerra Mundial. Com uma arquitetura clássica, a casa possuía dez grandes portas na entrada, cada uma composta por vitrais com inscrições dos dez nomes divinos, representando as dez emanações de Ain Soph na cabala, segundo o Sephirotic System. As dez entradas levavam a quatro grandes salas, cada uma com uma descrição: Atziluth, Beriah, Yetzirah e Asiyah. Essas salas interconectadas às dez grandes portas representavam a manifestação das emanações em quatro diferentes planos. Uma dessas salas permanecia vazia, sendo as outras três formadas por colunas em estilos dórico, coríntio e jônico. A casa possuía vinte e dois cômodos, em referência às vinte e duas ligações que os Sephiroth são conectados na árvore da vida.
Em frente à residência dos Klabin, estava a casa de Ingrid Sarahi. A casa era composta de traços abobadados, onde na parte central havia um domo circular decorado por arabescos. A parte interior possuía paredes decoradas com folhagens estilizadas, algumas inscrições em árabe com citações do Alcorão, e desenhos com arabescos nas paredes azulejadas, além de possuir arcos interiores em forma de ferraduras. Os desenhos repetidos sugeriam o infinito, simbolizando o poder infinito de Alá e as formas majestosas, com minaretes elevados que transmitiam energia e poder. Na parte externa, havia uma pequena mesquita construída seguindo a arquitetura otomana. Apesar do tamanho reduzido, na mesquita podia-se encontrar um espaço interno confinado por abóbadas, buscando uma harmonia entre os espaços interiores e exteriores, assim como entre a luz e a sombra. A parede era coberta por arabescos, reproduzindo um equilíbrio estético e técnico de muita elegância e de forma transcendental e divina. Sarahi fugiu do Líbano no final da década de 80, em consequência das invasões aéreas israelitas e acabou adotando Pleroma como lar.
A última casa da rua da Liberdade era da família Feng. A residência possuía uma atmosfera de grandiosidade e mistério, espalhada por um grande terreno, com jardins e pátios entre várias alas. Os telhados foram construídos sobre portões, com os beirais formando graciosas curvas para cima. Guo Feng chegou a Pleroma durante a revolução comunista chinesa de 1949 sob a liderança de Mao Tsé-Tung, trazendo consigo a religião budista e a filosofia de vida do Oriente. A parte interior da casa era simples e refinada. Painéis corrediços de madeira e de papel de arroz subdividiam as áreas internas em séries de espaços arejados. Quatro escadas davam acesso à parte superior e simbolizavam As Quatro Nobres Verdades, um dos principais ensinamentos de Buda. Em cada uma das quatro escadas haviam duas descrições, onde cada uma das descrições fazia referência a um dos oito caminhos nobres, chamado de O Nobre Caminho Óctuplo, que, segundo Buda, é um remédio que leva à aniquilação dos males.
Na parte central da rua da Liberdade, havia a praça da Fraternidade. Todos os domingos, as famílias Souza, Klabin, Sarahi e Feng se reuniam ali. As crianças andavam de bicicleta, brincavam de pião e corriam livremente. Os adultos buscavam renovação espiritual em meio àquele local de tranquilidade, ao canto dos pássaros e o verde das inúmeras árvores, flores e jardins, cada um segundo sua crença e filosofia de vida.
Essa era a praça da Fraternidade, localizada no centro da rua da Liberdade, num lugar chamado Pleroma.
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